domingo, 17 de outubro de 2010

O silêncio

Sairia naquela noite em busca de distração. Há tempos em casa, ela acabou aceitando o convite de algumas amigas para ir a uma festa. Passou a tarde no salão de beleza e voltou para casa. A amiga disse que a pegaria às 22h em ponto. Ainda havia tempo. Até mesmo de desistir. Não estava animada. Na verdade nunca se animava para essas coisas. Preferia ficar em casa com suas coisas, seus gatos, seus livros, sua série de TV favorita, vestida confortavelmente com aquela camisola velha, sentada no seu sofá, com uma caneca de chocolate quente, sem se preocupar com mais nada. Preferia a segurança do seu território a ter que se expor em festas ou encontros sociais. Às 19h começou a se arrumar. Se olhava no espelho e, apesar de jovem e bonita, não conseguia se ver desta forma. Fechou-se para o mundo. O trabalho constante, o estudo e algumas desilusões a fizeram assim. Trocou de roupa várias vezes, mas achava tudo muito cinza.Tudo muito sem graça. Terminou de se arrumar meio que insatisfeita com sua aparência. Rezou para que ninguém viesse lhe buscar. Sentiu um frio na barriga, uma ansiedade, um nervosismo. Procurou se acalmar. Estava nervosa sem motivos. Era só uma festa. Apenas uma festa. Tomou uma dose de whisky para relaxar. O tempo ia passando. No horário combinado, sua amiga buzinou na porta. Deu comida aos gatos, desligou a TV, fechou a transmissão do gás, e verificou se havia desligado o ferro. Trancou a casa e saiu. Ao entrar no carro, olhou para casa mais uma vez. Desculpou-se com a amiga pela demora. Era a falta de costume. Nunca saia de casa. No caminho não deu uma palavra. A amiga falava sem parar. Ao chegarem ao local, o espaço já estava cheio. Era uma casa de festas enorme com uma bela área externa. Música alta, muita comida e muita bebida. Suas outras amigas já estavam à sua espera. Cumprimentaram-se, beberam alguns drinks e foram dançar. Sentia-se deslocada. Não sabia dançar. Ficou parada em um canto da pista, focada em seu silêncio interior quando ele se aproximou. Ele se apresentou, puxou assunto e com o andar da conversa, ela logo percebeu o que ele queria. Ele ofereceu um comprimido. Disse que era a pílula do amor. Ela aceitou sem muito entusiasmo. Passados alguns minutos, ela se sentia outra. A mistura da pílula com o álcool foi explosiva. Beijaram-se. Ele a apertava contra uma parede no canto da pista. Passou a mão nos seus seios e começou a levantar seu vestido. Ela não tinha mais controle de suas ações. Saíram os dois e foram para uma área externa do espaço.Num canto escuro, onde supostamente não seriam vistos, tirou o vestido e se entregou de uma forma àquele desconhecido como nunca havia se entregado a ninguém. Ao terminar, ela estava em êxtase. Sentia-se livre. Finalmente livre do seu silêncio.

2 comentários: