terça-feira, 2 de outubro de 2012
Cabisbaixo
Andava sempre de cabeça baixa quando estava na rua. Talvez para não tropeçar em algo ou talvez porque tinha medo de encarar as pessoas. O fato é que sempre fora a mesma coisa. Muito tímido desde criança, não tinha coragem de olhar as pessoas nos olhos. No trabalho, seus colegas mal notavam a sua presença. No prédio onde morava, ninguém o conhecia. Pagava o condomínio em dia, não recebia visitas, não ouvia som alto, não existia. E assim vivia sua vida, sem se envolver com ninguém e sem pensar muito nessa sua condição. Mas um dia, seguindo sua rotina de andar cabisbaixo, chocou-se contra alguém. Sentiu uma forte dor na testa. Quando abriu os olhos, viu as pontas dos sapatos, a barra da saia, a blusa decotada, o pingente em formato de coração, os lábios, o nariz e pela primeira vez na vida, os olhos de uma mulher. Foi então que ele encontrou o amor.
Hoje, agora e sempre
- Poxa, amor. Você nem disse que me ama hoje... – Diz ela, deitada ao seu lado.
- Eu te amo hoje – Ele responde, dando-lhe um beijo no rosto.
- Não dá para ser romântico, não? É assim que você fala?
Ele se aproxima e diz no seu ouvido:
- Eu te amo hoje, agora e sempre!
Ela abriu um longo sorriso e ganhou o dia.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Adivinha quem é?
- Adivinha quem é? – disse ela tapando os seus olhos. Ele obviamente reconheceu a sua voz, seu cheiro e seu toque. – Não faço idéia – disse ele, virando-se para ela. Levantou-se e lhe deu um longo abraço e um beijo na boca. – Saudades de você, meu amor! Que surpresa! Não sabia que estava vindo. Por que não me avisou? Poderia ter ido lhe buscar no aerop... Sem deixá-lo completar a frase, ela o puxou e lhe beijou. – Vou ficar só até amanhã de manhã. Queria fazer uma surpresa – disse ela. Passaram o dia juntos. Caminharam e conversaram muito sobre tudo. Ele não podia acreditar que estava passando aqueles momentos especiais ao lado dela. Começou a chover forte e eles se abrigaram em um bar. Ela pediu para ir ao banheiro e enquanto se afastava ele, admirado, percebia o quão apaixonado estava. Quando ela retornou, a chuva já havia parado. Saíram para caminhar mais um pouco e um grupo de crianças separou-os. Enquanto o grupo passava, ele a olhava sorrindo. Adorava o jeito como ela sorria. Fazia umas covinhas. O grupo foi passando e a distância entre os dois aumentava. Tentou segurar sua mão, mas não alcançava. Cada vez ela ia ficando mais longe. Tentou novamente alcançá-la, mas sem sucesso. Ela ia ficando mais e mais longe, até que sumiu. Acordou sobressaltado e não conseguiu tirá-la da cabeça durante o resto do dia.
Quatro olhos
Na volta para casa, depois de um dia cheio, foi pensando nas coisas que lhe aconteceram nos últimos tempos. Desceu do ônibus cheio e foi caminhando para casa. Havia chovido e ele adorava o cheiro de terra e asfalto molhados. Passou o dia mal. Estava insatisfeito com o seu trabalho, seu relacionamento, consigo mesmo, com o mundo. O que poderia fazer para resolver? Por que seus amigos eram bem sucedidos e ele era tão fracassado? Sentiu um nó na garganta e começou a chorar. Estava escuro e chuviscava um pouco. Ninguém veria suas lágrimas. Sentou-se num banco, tirou os óculos e enxugou os olhos. Quando achou que estava perdido, sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Olhou para cima e viu um velhinho, que sorrindo disse-lhe: - Você é o homem mais feliz do mundo. Sabe por quê? Ele abanou a cabeça, negando. - Porque você tem quatro olhos: dois para ver e dois para enxergar.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Paga pra mim
- Moça, me deixa falar?
- Não tenho dinheiro.
- Não é isso, me deixa falar. É q...
- Já disse que não tenho dinheiro. Se tivesse, lhe dava.
- Não é dinheiro, eu quero comprar uma quentinha. Estou com fome.
- E para isso não precisa de dinheiro? Eu não tenho.
- Deixa eu falar! Eu quero uma quentinhaaaaaaaaaaaa! Por favooooooor!
- Não! Já disse que não!
Passados alguns instantes, o ônibus parou no ponto e ela subiu correndo atrás de uma rapaz que havia subido:
- Paga pra mim, moço! Pagaaaaaaaaaaa! Paga pra mim!
- Vou pagar nada para você, sua maluca!
- Tá bom! - E desceu do ônibus.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Não, ninguém quer!
Ele já estava no ponto há quase uma hora quando o ônibus chegou. Não estava muito cheio, mas todos os lugares estavam ocupados. Como já era previsto, ninguém pediu para segurar sua mochila. Ficou em pé, próximo à porta de saída. Estava exausto. O dia havia sido cheio. O ônibus parou em outro ponto e entrou um ambulante que dizia: - Pessoal, desculpe incomodar o silêncio da viagem de vocês. Estou aqui com o passatempo da viagem. É cinqüenta centavos! É três por um real ou um vale transporte. É QUA-LI-DA-DE! Não deixem de comprar. Sabia que o rapaz estava trabalhando, mas encontrava-se tão cansado que não suportava aquele falatório. Não tinha mais paciência. Só queria chegar em casa. Quanto mais tentava abstrair, mais alto o vendedor falava. Foi quando um homem que estava sentado em um dos acentos preferenciais começou a gritar: - Não, ninguém quer! Não, ninguém quer! Não, não, não, não, não, ninguém quer! Não, não, não, ninguém quer! Chega de tanto querer! E expulsou o pobre do ambulante de dentro do ônibus.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Medalha de prata
Foi para a faculdade naquele dia se sentindo diferente. Colocou um vestido novo, se maquiou, calçou um salto alto que acentuava suas pernas e saiu de casa. No caminho, atendeu o celular. Era ele, dizendo que iria buscá-la no final da aula. Ficou feliz, apesar de não ter entendido o motivo. Ele tinha uma voz séria ao telefone. Ao descer do ônibus, recebeu um elogio. Percebeu que alguns homens paravam para lhe olhar. Sentiu-se bem. Sentia-se linda. Assistiu à aula que mais gostava e viu que o professor olhava para suas pernas. Não procurou esconder, mas também não deu sinal de que havia notado. Próximo do final da aula recebeu um torpedo: - Cheguei – era a única palavra escrita. Ele nunca se atrasava. Esperou a aula terminar e foi ao seu encontro. Perguntou se poderia dar carona a um colega, mas ele negou. Disse que precisava conversar a sós. Entrou no carro preocupada. Ele estava muito sério. Não havia nem comentado o quanto ela estava bonita. No meio do caminho, ele cortou o silêncio: - Precisava falar com você hoje. Sem falta. Por isso não dei carona a seu colega. É coisa muito séria. Ela ficou tensa. Ele continuou: - Vim conversar com você hoje, porque é o dia que você tanto esperou. Hoje é o dia. – Que dia? - Perguntava ela. – O dia! – Respondeu ele, sorrindo pela primeira vez naquela noite. Ela ficou em silêncio por um tempo, procurando entender sobre o que ele falava. Quando gritou: - Mentira!!! – colocando a mão na boca. – É hoje? – Dizia incrédula. – É hoje a medalha de prata? Para o carro agora! Eu preciso te abraçar. E ele parou.
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